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31 de maio de 2016

Resenha: Garota Exemplar - Gillian Flynn

Título: Garota Exemplar
Autora: Gillian Flynn
Editora: Intrínseca
Páginas: 446


Desde sua publicação, em 2012, Garota exemplar tornou-se sucesso de público e crítica, alcançando o topo das mais prestigiadas listas de mais vendidos ao redor do mundo e consagrando sua autora, Gillian Flynn, como a mais aclamada escritora de suspense da atualidade. Agora, a trama sobre o casamento que sai tragicamente dos eixos chega aos cinemas, numa superprodução da Twentieth Century Fox dirigida por David Fincher (A rede social e Clube da luta) e estrelada por Ben Affleck e Rosamund Pike. O roteiro é assinado pela própria Gillian Flynn. O livro começa no dia do quinto aniversário de casamento de Nick e Amy Dunne, quando a linda e inteligente esposa de Nick desaparece da casa deles às margens do rio Mississippi. Sinais indicam que se trata de um sequestro violento e Nick rapidamente se torna o principal suspeito. Sob pressão da polícia, da mídia e dos ferozmente amorosos pais de Amy, Nick desfia uma série interminável de mentiras, meias verdades e comportamento inapropriado. Ele é evasivo e amargo mas seria um assassino? Ao mesmo tempo, passagens do diário de Amy revelam um casamento tumultuado mas ela estaria contando toda a história? Alternando entre os pontos de vista de Nick e Amy, Flynn cria uma aura de dúvidas em que o cenário muda a cada capítulo. À medida que as revelações surgem, fica claro que, se existe alguma verdade nos discursos de Nick e Amy, ela é mais sombria, distorcida e assustadora do que podemos imaginar. Magistralmente bem construído do início ao fim, Garota exemplar é um daqueles livros impossíveis de largar e sobre o qual se quer debater assim que a leitura termina.
 

CUIDADO COM QUEM VOCÊ ESCOLHE PARA TROCAR ALIANÇAS NO ALTAR

“O amor é a infinita mutabilidade do mundo; mentiras, ódio, até mesmo assassinato, tudo está atrelado a ele; é o inevitável desabrochar de seus opostos, uma magnífica rosa com um leve cheiro de sangue. - Tony Kushner, THE ILLUSION”

Deparando-se com essa citação, antes de ler o primeiro capítulo, você já sabe que não se trata de uma história de “viveram felizes para sempre”. A jovem autora, já bastante premiada, Gillian Flynn é jornalista, e é possível ter a sensação dessa profissão na escrita da obra. Ela é direta e perspicaz. E embora seja um livro grande, com um boa leva de personagens, eles estão todos muito bem desenvolvidos e atrelados, mesmo os que você acha que fazem parte apenas do figurino.

Trata-se de um suspense psicológico que nos leva ao mundo de um casamento arruinado sem gritos audíveis, que assusta ao demonstrar como a suposta calmaria de um rio em sua superfície pode esconder uma intensa correnteza nas suas partes mais profundas.

O enredo traz os personagens principais, o casal Nick e Amy, alternando narrativas em primeira pessoa. A alternância é frequente, quase capítulo por capítulo, o que também acontece como o tempo: ora estão falando sobre o presente, ora estão recordando o passado, trazendo um ritmo alucinante para o thriller.

Amy, é uma mulher inteligente, bonita e estigmatizada pela personagem politicamente correta e perfeita do livro infantil Amy Exemplar, de autoria de seus pais.

O que o livro trouxe de riqueza material e fama trouxe de expectativas frustradas para ela, que era comparada com a perfeição fictícia da personagem. Quando encontrou Nick numa festa, eles formavam um casal improvável, que acabaram contrariando esse detalhe e deram certo. Até que alterações na vida pessoal e no emprego de Nick fizeram com que o casal precisasse mudar para o interior, onde a rotina acabou contaminando o relacionamento deles.

Numa última tentativa de manter a tradição da caça ao presente de aniversário de casamento Amy desaparece. Na casa há sinais de luta. Nick tenta seguir as pistas deixadas por ela para tentar recuperar sua esposa e seu casamento. Porém, o que nunca foi fácil, pela genialidade da companheira, torna-se ainda mais difícil com a suspeita da comunidade sobre ele mesmo ter sido o algoz de Amy. Some-se a isso reviravoltas familiares, falsos amigos, revelações e mentiras... Gente, é de tirar o fôlego!

Se você já leu o livro e não assistiu o filme, assista! Não é um daqueles casos em que o filme estraga o livro, não mesmo. A adaptação é muito bem feita e Ben Afleck está encarnando Nick no papel.




CLASSIFICAÇÃO DNA
                                                  



21 de março de 2016

Resenha: Orgulho e Preconceito - Jane Austen

Título: Orgulho e Preconceito
Autora: Jane Austen
Editora: Martin Claret
Páginas: 479


Na Inglaterra do final do século XVIII, as possibilidades de ascensão social eram limitadas para uma mulher sem dote. Elizabeth Bennet, de vinte anos, uma das cinco filhas de um espirituoso, mas imprudente senhor, no entanto, é um novo tipo de heroína, que não precisará de estereótipos femininos para conquistar o nobre Fitzwilliam Darcy e defender suas posições com perfeita lucidez de uma filósofa liberal da província. Lizzy é uma espécie de Cinderela esclarecida, iluminista, protofeminista. Neste livro, Jane Austen faz também uma crítica à futilidade das mulheres na voz dessa admirável heroína — recompensada, ao final, com uma felicidade que não lhe parecia possível na classe em que nasceu.
 
“É uma verdade universalmente reconhecida que um homem solteiro e muito rico precisa de uma esposa. Por menos conhecidos que sejam os sentimentos ou as ideias de tal homem (...).”
Com essa frase tem início o mais famoso romance de Jane Austen, escritora nascida no sec. XVIII que é considerada a 1ª romancista moderna da língua inglesa.

Narrada em terceira pessoa, não chega a ser uma autoficção, mas existem rumores de que há inspiração na própria vida da Srta. Jane Austen neste romance, com destaque para a relação de cumplicidade e carinho entre as irmãs Jane e Elizabeth Bennet, protagonistas da história e filhas mais velhas de um clã de 5 irmãs.

Além de espelhar a beleza e a pureza de sua própria irmã em Jane e a sua própria perspicácia em Elizabeth, Austen teria dedicado à Mr. Darcy os defeitos e qualidades da única paixão que teve em sua vida. Outros personagens como Lady Catherine, Mr. Collins e o patriarca Sr. Bennet também conteriam traços da história pessoal da autora.

É difícil saber, no entanto, até que ponto esse rumores podem ser levados a sério porque Austen era muito reservada e esse romance remota suas primeiras notícias em 1790 com autoria anônima, enquanto sua primeira edição foi lançada apenas em 1813, desta feita com autoria de Jane Austen, o que denota poder ter havido várias modificações desde o original.


Fato mesmo é que, independentemente de todas essas incertezas, a história que recheia esse romance é atemporal, tratando exatamente de observações do comportamento humano em consonância com as diferentes classes sociais e seus próprios interesses.

Há competição entre mulheres para chamar a atenção de um homem, há traição de suposta amiga que trama contra a outra, bem como amizades verdadeiras entre familiares e entre amigos, notadamente entre Mr. Darcy e Mr. Bingley.

Outro tema levantado é o casar-se por dinheiro, o que àquela época e sociedade era comum e racional sob o aspecto de que o amor era desejável, mas não imprescindível, podendo até acontecer ocasionalmente, com o tempo.
“Ainda que não fosse certo que trouxesse a felicidade, devia ser a mais agradável proteção contra a necessidade.”


O orgulho e o preconceito, temas título dessa novela, estão presentes a todo momento e em praticamente todos os personagens. É interessante notar que embora sejamos levados a observar esses defeitos em Mr. Darcy, porque isso muito irrita Elizabeth, ela própria se acomete deles por muitas vezes em seus julgamentos. A futilidade e os péssimos modos da matriarca Sra. Bennet são marcantes e retratam a qualquer fofoqueira ali na esquina comendo torresmo e arrotando caviar. 

O orgulho encontra o preconceito, equívocos e julgamentos antecipados conduzem personagens ao sofrimento e ao escândalo. Porém, muitos desses conflitos conduzem ao autoconhecimento e ao amor.

Sob o pano de fundo de um belo romance com uma lição ao melhor estilo do Esopo, em meio ao enredo clássico com o retrato muito bem delineado da sociedade inglesa dos séculos XVIII e XIX, não se deixe enganar, o que Austin introduz como entretenimento, é na verdade o questionamento sobre o papel da mulher na sociedade.

O equilíbrio entre a seriedade e a comédia, a refinada dose de ironia e a observação meticulosa do comportamento humano resultam no brilhantismo dessa obra.


                               Classificação DNA


19 de novembro de 2015

Resenha: Criador e Criatura - Luigi RicciardiI

 Título: Criador e criatura
Autor: Luigi RicciardiI
Editora: Kazuá
Ano: 2015
Pág: 132


“Bem-vindo ao deserto do real” é a frase pronunciada por Morpheus para recepcionar Neo no mundo “real” no filme Matrix. Na célebre trilogia de ficção científica, as pessoas conectadas à Matrix jamais se perguntam se a realidade que as cerca é a vida real. Em um paralelo com o filme, uma das personagens do novo livro de Luigi Ricciardi se dá conta de que a vida que leva é bem real, mas que fora criada por um escritor. Em outro conto, um escritor recebe a incumbência de ser a própria morte. Mas na Literatura o escritor já não tinha esse poder/fado? É nesse tom que vem Criador e Criatura: desafiando os limites da ficção, abrindo um buraco em suas paredes para ver o que há além, onde o escritor brinca de ser Deus.

 


Só meu criador sabe o quanto é difícil escrever sobre obras assim! O intuito dessa resenha é apresentar pinceladas de alguns contos enquanto tento transmitir algumas sensações que tive ao lê-los. Já me desculpo se não curtirem o estilo ou não perceberem a intenção, aproveitando para me utilizar da última citação que antecede o índice desse livro, transcrevendo William P. Young: 

“Se você odiar esta história, desculpe, ela não foi escrita para você.”

Não, não odiei a história, mas ela também não foi escrita para mim. Ela foi escrita para a alma dos que criam mundos e submundos, dos que são pintores de letras em telas de papel. Ao deleite do leitor, as histórias abrem suas portas para esse universo da Literatura, um universo metalinguístico, surpreendente, chocante, que o autor intrincou com várias técnicas, com destaque para a francesa Mise En Abyme, a narrativa do abismo, que te caleidoscopa infinitamente.


O livro é dividido em 17 contos, o primeiro deles, Criador e Criatura, que dá nome à obra, traz o rompimento da criatura com o criador, com uma espécie de “ahá!” a personagem-criatura enfrenta o seu escritor-criador: 
“Você me criou, mas sou eu que vivo”, e sendo mulher, “saiu rebolando e dizendo com as ancas que esse era o fim”
O conto Eu, Literatura, envereda no modo literatura-marginal, num dos conflitos mais antitéticos da humanidade, na seara de vida e morte concluindo que 
“O homem que escreve se vai, mas o que ele escreveu fica”. 
Escrever é deixar um legado, é se fazer eterno; vive-se mesmo após a morte em suas palavras publicadas, até porque 
“no fundo, todos somos literatura, todos somo personagens inventados por nós mesmos”. 
É bem comum o tema da morte entre os escritores. No entanto, como já disse Bukowski, o pior não é a morte, mas sim o tipo de vida que se leva antes dela. Vale reflexões, portanto, sobre o que estamos fazendo por aqui, Agora e Na Hora de Nossa Morte, sendo o criador Divino e Letal com suas criações, determinante de seus destinos, esse conto faz do Criador a própria Morte, embora não tão galante quanto o Brad Pitt, que pena! 

E nem adianta gritar A Plenos Pulmões, porque ela é implacável, e esse conto... leiam e depois me contem! Parece loucura, mas é só verborrágico, ainda que não possa negar a impressão de que o escritor definitivamente só poderia compor isso fumando, afinal 
“desveredar estanquismos, despedaçar limbos e vomitar sempre aos domingos porque domingo é uma galinha com pescoço cortado” é para poucos!
Abrindo alas da insanidade para O Comedor de Barrigas, já alerto para as referências à Allan Poe e a Lovecraft. Estômago é necessário e cuide bem dele. Um conto de horror que soube inserir humor ao suspense, e ainda utilizou personagens e localidades reais da minha terra, como Alexandre Gaioto, o Jornal O Duque e a “praça do Peladão”, tudo isso dentro de um clima macabro e doentio.

Mas vamos acelerando porque não vai dar pra ficar até às Três Da Manhã No Jardim dos Condenados, pois o tempo não para e nem descansa, 
“o tempo vai passando esperando revolução. A pele se transformando, a pressão se acelerando e tudo pedindo produção, pois o mundo é para ontem.” 
E não vivemos sempre assim? Na prisão da rotina que te condena ao sistema de pressão social nascer, crescer, produzir, procriar e vamos logo que o próximo já vem vindo bem melhor que você?

Por isso nas Ficções Que (Provavelmente) Nunca Serão Escritas, Pois São Ruins, Ricciardi trata de se desmistificar, expondo uma coleção de ideias para outros contos e estórias das quais zomba e aproveita para zombar ainda de si mesmo. Mas de onde vem a genialidade senão da parcela de loucura do ser? E se Seminário de Ratos é um sucesso, porque não “As Aranhas Não Respeitosamente Cultas”?

E se for para traçarmos Paralelos, podemos rir ou gritar, podemos compreender ou tripudiar e, ainda solidarizar ou desdenhar. Mas vamos aplaudir tudo isso junto e repetidamente diferente. Que o digam Stephen Hawking, Scarlett Johanson, Elvis, Michael Jackson, Sérgio e Lorena; Michael Jordan, Marylin Monroe; Lula, Jack Marinos, Clarice Lispector, Dilma, Marcelo e Patrícia; Harry Potter, Gandalf, Capitu, Dan Brown e Taís; Seja grego, romano ou espartano, ou ainda de Marte, Vênus ou Saturno. Seja na Terra Média ou em Nárnia. Elvis não morreu. Aplausos!

Nota: Encontrei apenas 3 erros de grafia editorial. Como ainda não consegui definir se é mais que genial ou apenas muito insano - provavelmente as duas coisas - e, considerando que contos não são meu tipo de leitura favorito, minha nota é 3/5.

  Classificação DNA

23 de outubro de 2015

Resenha: Mundo Cão - Matheus Peleteiro

Título: Mundo Cão
Autor: Matheus Peleteiro
Editora: Novo Século - Talentos da Literatura Brasileira
Páginas: 166
Ano: 2015

Unindo elementos de literatura marginal com sentimentos altruístas, surge Mundo Cão, que narra, em primeira pessoa, a história de Pedro Contino, um jovem que sofre desde cedo por conta das peripécias da vida, e, por mais que busque o melhor, vê, em sua sombra, o caos. Morador da favela Roda Viva, Pedro poderia ter traçado qualquer caminho, mas a vida escolheu um em especial. Mesmo em meio à ausência de recursos, é apresentado à literatura por um vizinho mais velho, e, por conta dela, cria uma importante consciência social. Guiado por músicas e livros, ele logo percebe como tudo funciona. Indigna-se e, amargamente, constata que não tem poder para realizar uma mudança no mundo... O caos já faz parte dele, envolvendo-se com drogas, álcool, e, para completar, com as mais belas e loucas mulheres.
 
O jovem autor Matheus Peleteiro, que lançou esta sua primeira obra aos 19 anos, destaca uma ficção muito semelhante à realidade de grande parte da população brasileira através do protagonista Pedro Contino, a quem nomeou homenageando a Pedro Pondé, vocalista da banda Scambo e Gabriel Contino, mais conhecido como Gabriel o Pensador, utilizando várias referências musicais, nos mais variados estilos, fazendo questão de não apenas se apropriar de suas ideias e inspirações mas as destacando do texto e as explicando no rodapé. (Vale a pena conferir e conhecer as músicas e as bandas se ainda não as conhecer, inclusive, ouvi-las enquanto lê o livro é muito bom!)

O próprio nome da fictícia favela soteropolitana que situa geograficamente a estória narrada em primeira pessoa pelo protagonista é musicalmente sugestiva: Roda Viva – música de Chico Buarque que retrata o círculo vicioso, a roda que não para de girar na vida das pessoas que então se sentem presas à Ditadura militar da época. No entanto esse novo modelo de Roda Viva retrata, numa escrita simples, direta e principalmente fluida, o reflexo de toda favela brasileira, de seu infinito ciclo de crimes e de segregação social e racial.

A influência do gosto pessoal do autor não se detém na seara musical, havendo também referências a séries de televisão americana, filosofia e poesia. O estilo Bukowskiano de conduzir a estória evidencia a paixão do jovem autor pelo escritor alemão, isso quer dizer que a trama se desenvolve sem firulas ou enrolações, torneada em belas pernas femininas, regada a um nível alcoólico embriagante, onde o protagonista só se f... “dá mal”, especialmente quando você acha que ele vai se dar bem.

Pedro Contino, um jovem sem recursos que foi criado pelos avós em uma favela violenta e dominada pelo tráfico, diferentemente de seus colegas que sonham em ser os “donos da boca”, quer alçar outros voos, no entanto, não é otimista ao ponto de se lançar do penhasco. Ao contrário, pelo conhecimento adquirido com os livros que teve o privilégio de ter contato, almeja apenas construir uma vida honestamente vivível: trabalhar, auferir renda, morar dignamente, viver uma paixão e escrever para deixar um legado.

Porém, “o mundo é um cão raivoso prestes a lhe devorar”, e o desfecho mostra as razões pelas quais o cão está faminto e porque é impossível impedir o seu ataque.
“O mundo é um cão raivoso prestes a lhe devorar. E você deve conquistar uma parte dele antes que seja tarde demais e ele tenha lhe engolido por inteiro.”
“Muitas vezes é difícil distinguir o que sai da boca das pessoas do que sai do rabo de um cavalo” 
(Essa é uma das frases de efeito, dentre tantas do livro que te fazem refletir em vários aspectos. Como discordar? Vamos apenas pensar que um bom lugar para sentir o odor característico de uma tropa deles acometidos de uma virose altamente epidêmica é a grande rede mundial de computadores, mais especificamente algumas redes sociais onde se encontra todo tipo de “especialista”: cientistas políticos que jamais leram O Contrato Social ou Marx; economistas que não sabem quem é Simonsen; esportistas, educadores, feministas, nutricionistas e por aí vai... ou vão, vão compartilhando asneiras como se fosse uma brincadeira de telefone-sem-fio.)

Assim, nada mais justo que coroar de jovem TALENTO brasileiro da literatura, o autor desse romance que é apenas pano de fundo a uma verdadeira crítica social que proporciona reflexão e diversão, ao passo que você imagine Hobbes* estapeando Rousseau*.

*Thomas Hobbes, e Jacques Rousseau


Classificação

7 de outubro de 2015

Resenha: O Vilarejo – Raphael Montes

Título: O Vilarejo
Autora: Raphael Montes
Editora: Suma das Letras
Ano: 2015
Páginas: 93

Em 1589, o padre e demonologista Peter Binsfeld fez a ligação de cada um dos pecados capitais a um demônio, supostamente responsável por invocar o mal nas pessoas. A Partir daí, em narrativas que exploram as profundezas mais sombrias da alma humana, Raphael Montes narra com maestria a velha disputa entre o bem e o mal.





Após traduzir os misteriosos manuscritos de Elfrida Primminstoffer, uma senhora falecida a pouco tempo, que, no entanto já contava 102 invernos, o autor Raphael Montes, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2013, coloca no papel uma série de estórias (ou seriam histórias?) macabras sobre um vilarejo isolado por um inverno rigoroso e abandonado à própria sorte, ou melhor, ao próprio azar.

Trata-se de um romance fix up, ou seja, são estórias curtas e diversas que, embora estejam interligadas, podem ser lidas em qualquer ordem sem prejuízo da compreensão do todo. 

Cada capítulo representa um pecado capital, nomeado pelo seu respectivo demônio – mas não pense em monstros – as histórias se fazem marcantes justamente pela realidade, não pela fantasia, mas pelas possibilidades factíveis, pela vitalidade pulsante, pelo sangue!
As ilustrações corroboram com o clima macabro, trazendo imagens escuras de traços imprecisos, como os de HQ´s, bem característicos do ilustrador Marcelo Damm, que fez um trabalho incrível para esse livro, algumas imagens são chocantes e chegam a causar desconforto – objetivo atingido!
“_ Tenha esperança!_ Não adianta esperança... fomos esquecidos._ Esquecidos por quem, meu filho?_ Pelo mundo. Por Deus – reflete Anatole._ Ou talvez tenham sido lembrados pelo Diabo – retruca o velho. Solta uma gargalhada divertida._ Não acredito em Deus, na verdade. Também não acredito no Diabo._ Suponho que não precisem que as pessoas acreditem neles para existirem.” 
[Precisei destacar esse trecho porque realmente me provocou arrepios]

Fernanda Torres já havia comentado e eu assino embaixo, o autor não deve nada ao grande mestre do estilo, aliás, eis, finalmente, um Stephen King tupiniquim! 

Aconselho inclusive, que não leiam essas estórias pela noite, sob pena de enfrentarem problemas típicos de insônia e pesadelos. A não ser que já estejam habituados com o estilo [como sou fã de estórias e filmes de terror desde criancinha não sofri nenhuma consequência traumática. Se bem que o posfácio... ahhhh o posfácio... é simplesmente genial! ]


E aqui me permitirei uma pequena crítica: como li na ordem impressa – e não vejo motivo para fazer de forma diferente – ocorreu que tendo sido, para mim, o primeiro capítulo, o mais chocante, acabou por fazer com que os demais não superassem minhas expectativas. Gostaria de tê-lo lido num momento posterior, apesar de que compreendo que ele devia se afastar do último, mas, é claro que isso é uma questão puramente pessoal, para quem eleger outro capítulo como o mais cruel isso não fará a menor diferença.

Se eu pudesse daria uma pulinho ali na minha adolescência com esse livro a tiracolo numa roda de amigos em torno da fogueira, no sítio da minha avó e só uma palavra resumiria o desfecho: sucesso!

Classificação DNA


21 de setembro de 2015

Resenha: Que Fim Levou Juliana Klein?

Título: Que Fim Levou Juliana Klein?
Autor: Marcos Peres
Editora: Galera Record
Páginas: 350
Que Fim Levou Juliana Klein? de Marcos Peres é um romance policial que traz uma estória complexa - aliás a complexidade das tramas parece ser especialidade do autor do premiado Evangelho Segundo Hitler. Editora Record. 2013 - Trata-se de uma história ambientada num universo acadêmico, entre famílias que migraram da Alemanha para o Brasil, num passado recente e culmina em uma série de assassinatos, suicídios e mortes duvidosas envolvendo essas famílias que se odeiam ancestralmente e filosoficamente. Junte-se a este cenário um delegado interiorano desbravando a capital do Paraná para tentar solucionar esses crimes obcecadamente, intercalando apenas com seus momentos de frustação que culminam em cervejas, whisk e rabo de galo.

Antes de mais nada, preciso alertar para o fato de que esta é minha primeira resenha. Poderia ter escolhido algo menos complicado, mas não seria eu, haha.


A trama se inicia com a narração de uma psiquiatra que transcreve memórias e sonhos de uma paciente internada num suposto quarto número 206. [Post-it para esse fato do quarto 206! Meu faro de fã da literatura policial alerta.]

O tempo da narrativa viaja entre os anos de 2005, 2008 e 2011, com alguns flashbacks nas histórias das famílias Alemãs e rivais, Klein e Koch, ao século passado e no antigo continente, mas a escrita primorosa faz com que as transições não sejam caóticas, sem no entanto desmerecer a intenção de bagunçar a mente do leitor.

Embora as diferenças entre os Klein e Koch atuais sejam basicamente acadêmicas [Juliana Klein lecionando filosofia na UFPR e o ´Doutor Professor´ Franz Koch lecionando a mesma matéria na PUC], aos seus ancestrais coube iniciar a inimizade por conta de uma mulher, que despertou a paixão de dois homens: um Koch, que era seu noivo, e um Klein, que nem sabia que a moça era comprometida, e muito menos quem eram os Koch. Nem só de pão vive o homem, muito menos de filosofia, mas necessariamente de amor - sinto muito Nietzsche, Sartre, Platão, Dante Aliguieri e Santo Agostinho [eu disse que era complexo!], mas sem Shakespeare nada faria sentido nessa estória.

Discussões sobre antíteses e paradoxos, sobre predestinação e livre arbítrio, baseadas em Santo Agostinho, Sartre e Nietzsche envolvem a nova rotina do Delegado Irineu, destacado de sua cidade do interior do Paraná para ajudar na investigação de um crime na capital Curitiba, crime este que supostamente estartou uma série de outros assassinatos envolvendo as famílias Klein e Koch.

Irineu é descrito como um charmoso boêmio que acaba se envolvendo nessa história além do que deveria, com isso quero dizer se envolvendo nos braços (pernas) e na cama de uma Klein, o levando a ser passional e até mesmo irresponsável na seara profissional, doentiamente obcecado em solucionar a trama.
"Sinto em meu sangue. Vejo os fantasmas do passado e sei que o futuro tende a repetir - não é preciso ser um Klein ou um Koch para saber isso. Estudei Nietzsche e aprendi duas coisas. A primeira é que o livre-arbítrio é uma falácia, um argumento covarde dos que não conseguem perceber que o mundo, para o bem e para o mal, está escrito no passado. Nietzsche escreveu em uma parábola: 'Esta conversa, os detalhes desta conversa, o que somos, o que fazemos, tudo já foi feito.' A história é finita e cíclica. O fim gera um novo começo. E se o passado inevitavelmente se repete no futuro, devemos compreender, portanto, que o livre-arbítrio é um argumento não dos otimistas, mas dos hipócritas e dos estúpidos, que não conseguem ler o mundo à sua volta. Assim como na literatura: Montecchios e Capuletos, Klein e Koch, quantos não existiram, quantos ainda não existirão? Quantas vezes um delegado do interior não conversou com a filha de um estrangeiro, em busca de solucionar um caso? Somos arquétipos intemporais, Irineu. O que somos, já o foram muitas vezes, e o serão outras tantas, infinitas..."
Esse é meu destaque favorito no livro que me fez voltar a amar o gênero policial, porque me fez refletir por horas sobre o que vem primeiro, o ovo ou a galinha? Uma história pode se repetir, mas quando foi escrita pela primeira vez? Em algum momento se fez inédita... ainda vou pensar muito e não chegar a conclusão nenhuma, fato! Mas para Juliana a teoria cíclica de Nietzsche é nada menos do que óbvia.

Juliana Klein é casada com Salvador Scaciotto que também é acadêmico e eles tem uma filha, Gabriela Klein Scaciotto, que sofre todas as consequências de ver sua família sendo dizimada e com a possibilidade assente de ser a próxima vítima, ao passo que Irineu se sente responsável por mantê-la a salvo, o que, de uma forma surpreendente, é o que acaba acontecendo.

Que Fim Levou Juliana Klein, afinal de contas? Esse trabalho praticamente hercúleo de Irineu não chega ao fim com a última página. O autor inova no epílogo, mostrando aos leitores três hipóteses sobre o que pode ter acontecido com a personagem que leva o nome da obra. (E aqui me pergunto: seria possível ainda um outro fim?)

Esse livro conquistou meu coração com seus personagens fortes e intrigantes, me deixando com vontade de os conhecer ainda mais profundamente; com sua narrativa intensa, repleta de indagações, surpresas, revelações e reviravoltas, e ao mesmo tempo, fluida e coerente.

Minha leitura levou três dias, foi uma sensação de compulsividade, devorando as letras com os olhos, pois o gênero policial que eu tanto amo, com toda minha devoção ao Sir Arthur Conan Doyle, à preciosa Agatha Christie e ao genial Sidney Sheldon, foi muito bem representado por esse autor que escreve divinamente e que não tem nada de promessa da literatura nacional, só realidade.

Classificação DNA

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